A coluna cervical é acometida com fraturas/luxações em 2 a 3% dos pacientes que sofrem algum tipo de traumatismo contuso, sendo que a grande maioria dessas lesões ocorrem na coluna subaxial (entre a terceira e sétimas vértebras cervicais, C3-C7). A coluna cervical em sua porção subaxial é anatômica e biomecanicamente semelhante à coluna toracolombar, tanto em seus elementos ósseos como ligamentares, mas suas dimensões menores e maior amplitude de movimento em todos os planos torna-a mais propensa a Lesões.
Diversos sistemas para classificar as fraturas cervicais subaxiais foram desenvolvidos ao redor do mundo, atualmente a maioria dos hospitais, centros de referência e profissionais da saúde que tratam pacientes com esse tipo de fratura utilizam a classificação elaborada pela AO Foundation (sigla do alemão para “Arbeitsgemeinschaft für Osteosynthesefragen”). A tomografia computadorizada (TC) é obrigatória para a classificação completa de uma lesão da coluna cervical, e raios X em flexo-extensão ou ressonância magnética (RM) também podem ser necessários para identificar possíveis lesões discais e ligamentares. Vale ressaltar que achados intraoperatórios podem modificar a classificação inicial.
Embora as lesões por compressão sejam o tipo mais comum na coluna toracolombar, na coluna cervical são relativamente raras e representam menos de 15% de todas as lesões desta região. Caracteristicamente, as fraturas por compressão do tipo A resultam de compressão axial com ou sem flexão, apresentam redução da altura do corpo vertebral e têm um complexo disco-ligamentar íntegro.
Fraturas tipo A (compressão):
Fraturas por compressão do tipo A (impactação, “split” e fraturas por explosão “burst”) caracteristicamente resultam de compressão axial, e comumente causam uma redução de altura do corpo vertebral com o complexo ligamentar posterior permanecendo intacto. Ao contrário do que acontece na coluna toracolombar, onde as fraturas por compressão são o tipo mais comum, na coluna cervical são relativamente raros e representam menos de 15% do todas as lesões.
Normalmente essas lesões ocorrem em homens jovens, sendo quedas, acidentes automobilísticos e atividades esportivas as principais causas de lesão.
As fraturas do tipo A são subdivididas em A0, A1, A2, A3 e A4.
– A fratura tipo A0 é uma lesão óssea menor que não afeta a estabilidade da coluna vertebral, são as fraturas dos processos espinhosos e/ou transversos. Além disso, o tipo A0 pode ser usado para classificar o traumatismo raquimedular cervical subaxial com lesões neurológicas sem fraturas evidentes, p.ex. nos casos de lesão central medular em pacientes com espondilose cervical.

A fratura tipo A1 corresponde à fratura por impactação, são lesões raras que resultam de forças de compressão axial em flexão, o disco intervertebral é comprimido levando ao acunhamento do corpo vertebral, o que geralmente ocorre ao longo da placa terminal superior. Por definição é uma fratura que poupa o muro posterior da vérebra. Pelo fato de o córtex posterior do corpo estar intacto, e como comumente não há lesão do complexo ligamentar posterior (CLP), o risco de lesão neurológica é baixo. No entanto, danos ao CLP podem ocorrer em fraturas do tipo A1 criando uma lesão instável, a associação com alargamento do espaço interespinhoso, subluxação e perda de lordose cervical indica uma provável ruptura ligamentar, a chamada lesão por flexão oculta.


As fraturas tipo A2 (Split) são lesões raras e se caracterizam pelo traço coronal ou sagital envolvendo ambas as placas terminais, porém poupando o muro posterior da vértebra. Na fratura do tipo pinça (“pincer-type” A2.3), há deslocamento acentuado do fragmento ósseo anterior e pequenas zonas de descontinuidade, levando à redução da resistência à compressão e aumento da suscetibilidade do segmento afetado para ocorrência de pseudoartrose.


As fraturas tipo A3 e A4 (Burst), ou fraturas em explosão podem ser incompletas (“incomplete burst fractures” – A3) ou completas (“complete burst fractures” – A4). Ambas resultam de mecanismos que provocam altas cargas axiais compressivas, acometendo as regiões anterior e média das vértebras cervicais, geralmente acometem a região da coluna cervical mais baixa (C6 ou C7). As fraturas A3 se caracterizam por lesionarem apenas uma placa terminal (superior ou inferior) e a parede posterior do corpo vertebral, já as fraturas A4 lesionam ambos os platôs vertebrais (superior e inferior) e também a parede posterior do corpo vertebral. Com essa alta carga axial a pressão dentro do disco é rapidamente aumentada, empurrando o platô discal superior para dentro do corpo vertebral, que por sua leva à retropulsão de fragmentos ósseos para dentro do canal vertebral. O córtex posterior do corpo vertebral é lesado, o que promove a diminuição da altura vertebral e, como consequência, gera-se uma postura de cifose segmentar. Mais da metade das fraturas cervicais tipo “burst” podem estar associadas a lesão medular (completa ou incompleta).


Como as Fraturas do tipo A podem ser tratadas?
As fraturas do tipo A, sem danos neurológicos, podem ser tratadas não cirurgicamente com uso de colar cervical, órtese cervicotorácica rígida ou um colete halo, dependendo da gravidade da lesão, desde que o complexo disco-ligamentar (CDL) tenha sido minuciosamente avaliado.
A lesão do CDL não é uma indicação absoluta de tratamento cirúrgico, fraturas por compressão e “Split” com lesões do CDL ainda podem ser tratadas de forma não conservadora, não cirúrgica. É importante ressaltar que pacientes com uma possível lesão do CDL requerem monitoramento frequente, pois essas lesões podem se deslocar.
Fraturas tipo explosão (“burst”) em pacientes neurologicamente intactos com ruptura do CDL podem ser tratadas conservadora ou cirurgicamente. Pelo risco de deslocamento, lesão neurológica, e dor tardia, e considerando a segurança e eficácia da estabilização por via anterior, o tratamento cirúrgico pode ser preferido. No entanto, deve-se sempre considerar o custo-benefício do tratamento conservador, pois a morbidade em se perderem dois níveis cervicais móveis podem ser significativos no longo prazo, especialmente em um paciente jovem.
Pacientes que se apresentam com lesão neurológica após esses tipos de fraturas devem ser cuidadosamente avaliados para uma redução (aberta ou fechada), sendo o tratamento cirúrgico indicado para todos os pacientes com déficit neurológico persistente. Além das lesões neurológicas, a falha para alcançar ou manter a redução correta e o desalinhamento também são indicações para o tratamento cirúrgico.
A abordagem e via de acesso mais utilizada pelos neurocirurgiões e cirurgiões de coluna é a descompressão por via anterior direta, com uso de enxertos interssomáticos (entre os corpos vertebrais) e uso de placas com parafusos. Estes implantes podem ser de diferentes materiais, a depender da criteriosa seleção pelo cirurgião realizada caso a caso, sendo os materiais mais comumente usados os de titânio, PEEK (sigla em inglês para poli-éter-éter-cetona) e carbono.


